O último verso de Neruda é uma declaração de amor

23 setembro 2016

A voz de Pablo Neruda calou-se dias depois do golpe militar de Pinochet e do assassinato de seu amigo Salvador Allende, presidente eleito do Chile. Por uma estranha coincidência, Allende foi executado no Palácio Presidencial pela turma do general Pinochet exatamente no dia 11 de setembro de 1973. Esta data passou a ser mais sinistra ainda, 28 anos depois, quando do atentado às torres do World Trade Center em Nova York.

Neruda, já doente, não resistiu à tristeza e ao desespero de ver seu Chile ser tomado de assalto por um general sanguinário. Morreu 12 dias após o golpe, em 23 de setembro de 1973. A casa do poeta era famosa, em Isla Negra, referida muitas vezes em seus versos. Recorrente também em sua obra é a relação com o mar, com a liberdade, a solidariedade, as paixões e as mulheres. Desde 1980 a L&PM publica obras de Pablo Neruda. Hoje temos em nosso catálogo dezenas de livros que reúnem uma parte importante da sua obra poética. Incluindo a nova edição bilíngue de O mar e os sinos (El mar y las campanas) que foi publicado no Brasil com o título de Últimos Poemas (O mar e os sinos). É o livro em que o poeta trabalhava quando morreu. Uma obra belíssima. Melancólico, íntimo, nostálgico, Neruda expõe seus diálogos com o mar e se mostra sereno e altivo em relação à morte eminente. E, sobretudo, possui uma linda declaração de amor, das mais belas que eu conheço. Seu último poema conhecido, “Final”, foi para sua mulher Matilde Urrutia.  Em um dos versos ele diz:

 Foi tão belo viver

Quando vivias.

Isto sim é que é amor… (Ivan Pinheiro Machado)

Pablo Neruda e sua esposa, Matilde

 

Livros de Neruda na L&PM Editores:

A Barcarola

Cantos cerimoniais

Cem sonetos de amor

Coração amarelo

Crepusculário

Defeitos escolhidos & 2000

Elegia

Jardim de inverno

Livro das perguntas

Memorial de Isla Negra

Residência na Terra I

Residência na Terra II

A Rosa separada

Terceira residência

Últimos poemas

As Uvas e o vento

Novo livro de Luiz Antonio de Assis Brasil em destaque

21 setembro 2016

O inverno e depois“, novo livro de Luiz Antonio de Assis Brasil será lançado nesta quarta-feira, 21 de setembro, em Porto Alegre na recém inaugurada livraria Saraiva do Shopping Iguatemi.

O lançamento ganhou destaque em vários jornais e foi capa do Segundo Caderno do Jornal Zero Hora e do caderno Panorama do Jornal do Comércio.

O novo livro de Luiz Antonio de Assis Brasil em destaque no jornal Zero Hora (clique para ampliar)

O novo livro de Luiz Antonio de Assis Brasil em destaque no jornal Zero Hora (clique para ampliar)

Assista ao Booktrailer de “O inverno e depois” em que Luiz Antonio de Assis Brasil lê trechos de seu novo livro:

O vestido mais famoso do cinema

14 setembro 2016

Digamos que você tivesse uma máquina do tempo. Imagine que, ao entrar nela, fosse possível girar um botão e ir parar em Nova York há exatos 62 anos atrás. Neste caso, você provavelmente seria uma das pessoas que se acotovelaram para ver uma das cenas mais célebres do cinema: a louríssima, glamourosa e vaporosa Marylin Monroe mostrando as pernas enquanto seu vestido branco flutuava junto com os pensamentos daqueles que acompanhavam a gravação de O pecado mora ao lado.

“Na própria noite de chegada, 14 ou 15 de setembro de 1954, a produção planejou filmar no coração de Nova York uma curta cena em que a loura criatura se entrega inocentemente, no espaço de um instante, à volúpia de deixar o vestido se levantar em cima de um bueiro de metrô.” descreve o livro Marilyn Monroe, de Anne Plantagenet, Série Biografias L&PM.

O vestido em questão foi desenhado pelo estilista William Travilla que já havia criado modelos para o filme Os homens preferem as loiras. Travilla, que conhecia como ninguém as preferências da Fox, o estúdio responsável por O pecado mora ao lado, criou um vestido cujo tecido teria que ser tão leve a ponto de ter sua saia levantada pela corrente de ar do metrô. “Queria que ela parecesse fresca e limpa. Então me perguntei o que podia fazer com essa mulher tão linda para que aparecesse com uma imagem clara, pálida e adorável? Que tipo de vestido poderia ser levantado por uma brisa e que ao mesmo tempo fosse divertido e bonito?” disse Travilla na época. Foi durante um final de semana que Travilla desenhou os dez vestidos que Marilyn Monroe usaria no filme, entre ele um branco, simples, de verão, plissado e com as costas de fora que produziria um efeito mágico.

Marilyn Monroe "Seven Year Itch", 1955

A etiqueta do vestido de Marilyn com a assinatura de seu criador

Após a estreia da película, o vestido branco ficou com o estúdio que o vendeu para Debbie Reynolds. O mundo, no entanto, não se conformou e prostestou que queria vê-lo de perto. Assim, no final dos anos 50, Travilla conseguiu que Reynolds lhe emprestasse a peça para que ele pudesse fazer uma cópia exata, com os mesmos materiais e medidas. Foi a primeira e única vez que o estilista fez duas vezes a mesma peça.  A partir de então, a roupa mais célebre de Marilyn (ou pelo menos um clone dela) passou a participar de exposições pelo mundo.

Já o vestido original usando pela loira foi a leilão em junho de 2011 e acabou sendo arrematado pela “bagatela” de 4,6 milhões de dólares.

Ferlinghetti e seu parque de diversões da cabeça

6 setembro 2016

Lawrence Ferlinghetti é um dos beats originais, da turma de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Bourroughs. Aos 97 anos, lúcido e produtivo, ele se diz cansado e “só esperando pelo blecaute final”, conforme relatou em recente entrevista à Folha de S. Paulo. Na entrevista, aliás, o escritor, fundador da editora City Lights, fala de poesia, anarquismo, Obama e os amigos beats Ginsberg e Burroughs. A entrevista é de Rafael Sassaki. Clique aqui para lê-la na íntegra.

Ferlinghetti lendo

Como começou a escrever poesia? Como foi escrever “Um Parque de Diversões da Cabeça”?
Não me dei conta que era poeta, me dei conta de que tinha algo a dizer. Eu havia acabado de voltar de Paris, onde vivi por 4 anos, fazendo doutorado. E vim direto para São Francisco, onde nunca havia estado. O que escrevi nos meus primeiros anos aqui foi influenciado por autores franceses. Mas o que acontecia em São francisco imediatamente passou a afetar minha escrita. Os anos 1950 foram uma época revolucionária. Havia mais oportunidades em São francisco do que em Nova York, que já estava vendida, onde tudo já havia sido tomado. Em São Francisco você podia fazer qualquer coisa, ainda havia uma última fronteira na América, e era um lugar excitante de se estar.

um_parque_de_diversoes_da_cabeca

De Lawrence Ferlinghetti, a L&PM publica, além de Um parque de diversões da cabeçao romance Amor nos tempos de fúriaAlém disso, Uivo, de Allen Ginsberg, livro publicado originalmente pela City Lights (e pelo qual Ferlinghetti foi processad0), também faz parte do catálogo L&PM.

Nova Montblanc William Shakespeare em edição limitada

5 setembro 2016

2016 marca os 400 anos de morte de William Shakespeare. Para não deixar a efeméride passar em branco, a Montblanc lançou uma nova caneta em homenagem ao bardo. O design octogonal é inspirado no The Globe, teatro de Londres que pertencia ao escritor; o anel e o clipe retratam o brinco dourado que Shakespeare usa no seu retrato mais conhecido, o retrato de Chandos. E o site oficial da Montblanc dá ainda mais detalhes: “O corpo multicolorido da esferográfica está ornamentado com requintados padrões de guilhoché e coberto com um verniz precioso, enquanto a tampa é de verniz preto puro.”

Batizada de “Writers Edition William Shakespeare 1597″, ela limita-se, como o próprio nome indica, a somente 1.597 canetas-tinteiro no mundo todo. O número limitado gravado na tampa é prova da exclusividade de cada peça.

Quanto custa essa preciosidade? Cerca de 12 mil reais. Digamos que não é para qualquer um.

Shakespeare Mont Blanc

Uma Montblanc especial para marcar os 400 anos da morte de Shakespeare

Clique aqui e conheça outros modelos de Montblanc inspirados em escritores famosos.

Os novos selos comemorativos de Agatha Christie

1 setembro 2016

A página oficial de Agatha Christie anunciou esta semana que, para celebrar o centenário de lançamento do primeiro romance policial da Rainha do Crime (O misterioso caso de Styles) e da criação de Hercule Poirot, o Royal Mail do Reino Unido vai lançar seis novos modelos de selos que trazem cenas de seis romances importantes: Assassinato no Expresso Oriente, O Misterioso caso de Styles, E não sobrou nenhum, Um corpo na biblioteca, O assassinato de Roger Ackroyd e Convite para um homicídio. Além dos selos, também serão lançados cartões postais com as mesmas ilustrações.

O lançamento oficial vai acontecer em 15 de setembro (dia do aniversário de Agatha Christie), em Torquay, durante um evento exclusivo que acontecerá em parceria com o Royal Mail. A partir deste dia, será possível comprar o conjunto dos seis selos com um carimbo especial, o conjunto dos seis cartões postais, além de um pacote especial apresentado por Mathew Prichard, neto da escritora, que traz textos e fotos de Agatha Christie sobre sua família, sua vida e sua obra e também reflexões intrigantes sobre seu personagem mais famoso, Hercule Poirot.

Lá no site do Royal Mail você encontra mais informações. Conheça os selos:

agatha-christie-stamp-gallery-murder-on-the-orient-express-378x359

agatha-christie-stamp-gallery-the-mysterious-affair-at-styles-378x359

agatha-christie-stamp-gallery-the-murder-of-roger-ackroyd-378x359

agatha-christie-stamp-gallery-the-body-in-the-library-378x359

agatha-christie-stamp-gallery-and-then-there-were-none-378x359

agatha-christie-stamp-gallery-a-murder-is-announced-378x359

Baudelaire fecha os olhos

31 agosto 2016

De agora em diante, Baudelaire está preso à cama, enquanto a Sra. Aupick, nada mais podendo fazer pelo filho, volta para sua casa normanda. Os amigos infalíveis, como Nadar Banville, Champfleury e Asselineau, sucedem-se em seu quarto e tentam alegrar seus tristes dias. Apollonie Sabatier, a Presidenta, também vai seguidamente vê-lo e fica longas horas a seu lado.

Quanto a Jeanne…

Ninguém sabe onde ela está, ninguém próximo ao poeta a vê nem de perto nem de longe, nem em Paris nem alhures, pelo menos há um ano.

O tempo passa, inexorável, impiedoso, feroz, sinistro, assustador, e agora Baudelaire só responde com duas ou três palavras, com pausas formuladas em voz trêmula, depois com monossílabos e imperceptíveis movimentos das pálpebras e dos lábios.

Sua mãe acorre da casinha de brinquedo. Ela não larga sua mão. Cerca o filho de cuidados, sentada lacrimosa em uma poltrona de acompanhante; fala com ele baixinho, balbucia, evoca vagas e longínquas lembranças. Espera em silêncio que os anjos passem.

Na sexta-feira, dia 30 de agosto de 1867, ela chama um padre e pede encarecidamente que administre a extrema-unção a seu filho. E ela reza. Ela reza a Deus e aos santos, com as mãos juntas, o olhar úmido.

Na manhã seguinte, por volta das onze horas, quando Baudelaire morre em seus braços e ela fecha os olhos dele para sempre, a Sra. Aupick ainda não sabe que colocou no mundo, 46 anos e quatro meses atrás, um dos grandes mágicos da literatura.

(Trecho final de Baudelaire, de Jean-Baptiste Baronian – Série Biografias L&PM Pocket – disponível também em e-book)

Baudelaire em 1863, quatro anos antes de morrer

Baudelaire em 1863, quatro anos antes de morrer

De Charles Baudelaire, a L&PM publica Paraísos Artificiais – O haxixe, o ópio e o vinho e O Spleen de Paris.

O vinho é como o homem: não se saberá nunca até que ponto podemos estimá-lo ou desprezá-lo, amá-lo ou odiá-lo, nem de quantos atos sublimes ou perversidades monstruosas ele é capaz. Portanto, não sejamos mais cruéis com ele do que com nós mesmos e tratemo-lo como um igual.

O triste fim de Friedrich Nietzsche

25 agosto 2016

Melancólico e solitário, Nietzsche foi atormentado pelo fantasma da doença mental de seu pai e acabou acometido do mesmo mal.

Durante o verão de 1900, seu estado de saúde se agravou por causa de uma bronquite que evoluiu para doença pulmonar. Vítima de apoplexia, Friedrich Nietzsche morreu às onze e meia da manhã de um sábado, 25 de agosto, aos 54 anos.

Ainda que suas dores físicas tenham sido a origem e a causa de seu isolamento exterior, é no sofrimento psíquico que se deve buscar as raízes de seu individualismo exaltado: foi  ele que levou Nietzsche a ressaltar o caráter único de uma solidão como a sua. A história desse homem “único” é, do começo ao fim, uma biografia da dor e não tem nenhum ponto comum com qualquer individualismo geral, uma vez que seu conteúdo não provém do “contentamento de si mesmo”, mas da força com que Nietzsche consegue “suportar a si mesmo”. Acompanhar as alternâncias dolorosas de ascensão e declínio que demarcam seu desenvolvimento intelectual é reler toda a história dos ferimentos que ele se inflingiu. “Esse pensador não precisa de ninguém que o refute: para tanto ele se basta”. Essas palavras audaciosas que Nietzsche emprega acerca de sua própria filosofia escondem uma luta heroica, longa e dolorosa consigo mesmo. (Lou Andreas-Salomé sobre Nietzsche – Em Nietzsche, Dorian Astor, Série Biografias L&PM)

Este impressionante vídeo traz cenas de Nietzsche, captadas em 1900:

A L&PM tem uma série inteira dedicada a Nietzsche. Clique aqui para ver.

Pesquisa comprova: livros são uma fonte da juventude

22 agosto 2016

Um estudo chamado “A Chapter a Day” (Um Capítulo por Dia), realizado pela Universidade de Michigan, parece ter comprovado que ler livros influencia na longevidade. Segundo a pesquisa, que entrevistou 3.635 pessoas acima de 50 anos, a leitura, aparentemente, reduziu em 20% os riscos de morte. Essas pessoas foram acompanhadas pelos pesquisadores durante 12 anos.A pesquisa utilizou dados do Health and Retirement Study e foi publicada na revista “Social Science & Medicine”.  Além de verificar se e quanto as pessoas liam, o estudo precisou “descontar” o efeito de alguns fatores que influenciam a longevidade, entre eles: câncer, doenças de pulmão, infarto, diabetes e hipertensão. Estado civil e situação e trabalho, histórico de depressão, idade, sexo, raça e condição econômica também foram considerados.

E realmente não há dúvida: a leitura de um bom livro ajuda na concentração, pensamento crítico, empatia, comportamentos mais saudáveis e menos estresse. E tudo isso, sem dúvida, mantém a saúde da mente e, consequentemente, do corpo.

E aí? Bora mergulhar num livro pra ter vida longa?

Tolstói foi um dos que mergulhou fundo nessa fonte da juventude

Tolstói foi um dos que mergulhou fundo nessa fonte da juventude

Julia da Rosa Simões comenta desafio ao traduzir Montaigne

19 agosto 2016

Jornal Zero Hora – Segundo Caderno, 19/08/2016

Julia da Rosa Simões está vertendo para o português os “Ensaios” do autor. O primeiro volume já está nas livrarias

Julia Simões está traduzindo os Ensaios de Michel de Montaigne (1533 – 1592) para a L&PM Editores. Montaigne deixou três volumes da obra, sendo que o inicial foi dividido em dois tomos. O primeiro já está nas livrarias. O segundo deve ser lançado nos próximos meses. No novo volume, a tradutora deparou com o termo “chacunière”, a partir do qual escreveu o texto a seguir.

Julia Simões visitou no ano passado o castelo no qual Montaigne escreveu os "Ensaios", em Bordeaux, na França.   Ao lado, a capa do primeiro volume traduzido por Julia, já nas livrarias

Julia Simões visitou no ano passado o castelo no qual Montaigne escreveu os “Ensaios”, em Bordeaux, na França. Ao lado, a capa do primeiro volume traduzido por Julia, já nas livrarias

 No capítulo 34 de seus Ensaios, intitulado De um defeito de nossa administração, Montaigne aborda um hábito de seu pai, que reconhece como valoroso mas que teme não conseguir reproduzir: “Método que sei elogiar mas não seguir”. O pai de Montaigne contratava alguém para escrever um diário, como diz o ensaísta, para registrar “as memórias da história de sua casa”. Coisa útil para quando surgisse uma dúvida ou dificuldade, mas também agradável quando o tempo apagasse as lembranças.

Montaigne encerra o ensaio com uma frase que contém uma expressão que me encanta: “Usage ancien, que je trouve bon à rafraichir, chacun en sa chacunière: et me trouve un sot d¿y avoir failly”. Chacun en sa chacunière. Não consigo não sorrir. Fico fascinada com a palavra chacunière, que soa a neologismo e, ao mesmo tempo, a arcaísmo. Antes de dar uma conferida no dicionário, penso na expressão “cada um com seu cada qual”. Que é boa, me agrada em português. Mas não é a mesma coisa: lembra demais o batido “sempre tem um pé torto para um chinelo velho”. Comentei-a com um amigo, apreciador das sutilezas da língua, que sugeriu uma versão em carioquês: “cada um com seus pobrema”. Ok, vale descontrair, mas não é exatamente isso o que está em questão para Montaigne.

Ao ir atrás do significado e da etimologia de “chacunière”, não me surpreendi ao ver que um dicionário como o Le Petit Robert não a registra. O excelente Trésor de la Langue Française Informatisé, no entanto, sempre corresponde às expectativas. Segundo ele, a palavra diz respeito a um local para o qual o indivíduo se retira, como uma casa ou um apartamento. Um trecho de Théophile Gautier, de 1863, confirma o uso, que segundo o dicionário é informal. Outro uso, menos comum mas também possível, seria o de considerar a chacunière a mulher do chacun. Muito menos interessante. O Grand Robert, por sua vez, dá a palavra como alusão arcaica à “casa de cada um” (maison de chacun), algo como um mutante “individuário” (casa do indivíduo).

Para quem gosta de perder tempo com essas coisas, como eu (em vez de seguir em frente com a tradução), foi bacana descobrir, ainda no TLFi, agora na seção Etimologia e História da Palavra, que o primeiro uso da expressão data de 1532. Rabelais, em seu Pantagruel (capítulo 14), já dissera: “Ainsi chascun s¿en va à sa chascunière”.

Interessante… 1532! Estou trabalhando com a versão de 1595 do Montaigne. Pontas parecem se unir – na minha cabeça, pelo menos. Algo pisca para mim, não sei bem o quê. Rabelais, um dos criadores da prosa francesa, segundo Sainéan em La langue de Rabelais, de 1922-23. (O oráculo Google pode nos levar a maravilhas.) Para Sainéan, chascunière seria uma “formação ou derivado analógico” de chaumière (choupana, cabana). A palavra também pode ser encontrada, segundo esse autor, em De Périers e Montaigne, em Madame de Sévigné e Scarron – todos fascinados, informa uma nota da edição da Bibliothèque de la Pleiade, por essa “fantasia verbal de consonância jurídica”.

Fico devendo na consonância jurídica, mas já estou satisfeita. É isso mesmo. Também em Rabelais chacunière tem a ver com a casa, o lugar de cada um. Daí que minha tradução da frase fica: “Costume antigo, que considero bom reavivar, cada um em seu lar; e me considero um tolo por ter falhado nisso”. Perco a sonoridade, a alusão, mas consigo manter o sentido.

E não é que, de repente, me ocorre a tradução perfeita, ou o equivalente exato da expressão para o português coloquial atual? O infame “cada um no seu quadrado”.

E não é que, de repente, me ocorre a tradução perfeita, ou o equivalente exato da expressão para o português coloquial atual? O infame “cada um no seu quadrado”.